A Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), em Rio Branco, atendeu mais de 1,8 mil pacientes com câncer de mama e câncer do colo do útero nos primeiros nove meses de 2026. Nos últimos anos, o Hospital de Câncer do Acre tem investido em infraestrutura e tecnologia para ampliar o acesso ao tratamento oncológico no estado, reduzindo a necessidade de deslocamento de pacientes para outras regiões do país.
Atualmente, a unidade realiza cerca de 4,8 mil atendimentos por mês, o que representa mais de 57,6 mil procedimentos ao ano. Segundo o radio-oncologista Melk Hadad, gerente de Assistência da Unacon, a ampliação da capacidade de atendimento permite que os pacientes tenham acesso a terapias modernas e eficazes sem precisar deixar o estado.

“Além de ampliar o acesso da população a tratamentos atualizados, conforme protocolos clínicos nacionais e internacionais, a medida reduz a necessidade de tratamento fora de domicílio [TFD], diminui custos indiretos para o sistema de saúde e evita o desgaste físico e emocional dos pacientes e familiares que precisavam buscar atendimento em outros estados”, destaca.
De acordo com o médico, pacientes que realizam tratamento próximo da família tendem a apresentar melhor adesão às terapias e melhores resultados clínicos: “Um paciente em tratamento oncológico perto de casa pode ter um desfecho mais favorável em comparação àquele que precisa ficar longe da sua rede de apoio”.
A porta de entrada da Unacon é o setor de triagem, responsável por receber pacientes já diagnosticados com neoplasia maligna. Para o atendimento inicial, é necessário apresentar encaminhamento médico, resultado de biópsia positiva e exames laboratoriais e de imagem, quando disponíveis.
“Nesse setor, o médico triador avalia os exames e direciona o paciente ao especialista oncológico responsável pelo início do tratamento”, explica Hadad. O médico ressalta que a Unacon não realiza o diagnóstico inicial da doença. “Os pacientes chegam encaminhados por especialistas de origem, já com biópsia confirmando a neoplasia. Casos de câncer de mama, por exemplo, costumam ser encaminhados pelo mastologista; os de próstata, pelo urologista”, completa.
Apesar dos avanços, a gestão reconhece que ainda há gargalos a serem superados, especialmente em relação ao quadro de especialistas: “Estamos trabalhando em estratégias para ampliar a carga horária de alguns profissionais e também para a contratação de novos especialistas”.
Outro desafio é a estrutura física da unidade. Criada em 2007 para atender cerca de 500 pacientes, a Unacon acompanha atualmente aproximadamente 17 mil cadastrados. Para enfrentar a demanda crescente, a governadora Mailza Assis autorizou a ampliação do prédio da unidade.

Um dos principais avanços da oncologia acreana está na área de radioterapia. A Unacon opera o único acelerador linear do estado, equipamento disponibilizado pelo Ministério da Saúde, com investimentos complementares do governo do Acre. Segundo Hadad, a tecnologia permitiu uma verdadeira transformação nos protocolos de tratamento.
“Com esse equipamento, procedimentos que antes exigiam de 25 a 40 sessões podem ser realizados em períodos significativamente menores. Em alguns casos, utilizando técnicas de radiocirurgia, o tratamento pode ser concluído em um, três ou cinco dias”, relata.
O impacto é ainda maior para pacientes do interior, comunidades ribeirinhas e povos indígenas, que antes precisavam permanecer durante meses em casas de apoio ou se deslocar para outros estados em busca de atendimento especializado. “Hoje conseguimos oferecer tratamentos de alta complexidade com a mesma qualidade, integralmente pelo SUS e dentro do Acre”, diz.
Outro destaque é o serviço de braquiterapia utilizado no tratamento de tumores ginecológicos: “O Acre possui o primeiro equipamento do país operando com fonte de cobalto, cuja durabilidade chega a cinco anos. Em grande parte dos serviços brasileiros, utiliza-se a fonte de irídio, que precisa ser substituída a cada três meses. Além disso, poucos hospitais do Brasil oferecem braquiterapia, e aqui o tratamento é disponibilizado 100% pelo SUS”.

“Eu sobrevivo de milagres”. Assim, a historiadora e servidora pública Iri Nobre, residente na capital acreana, resume sua história e a defesa do tratamento de câncer de mama perto de casa. Quando completou um ano sem menstruar, em 2023, acreditou estar repetindo a história da mãe, que também enfrentou a menopausa precocemente.
O que parecia ser apenas uma consulta de rotina transformou-se em um divisor de águas. Durante os exames solicitados pela ginecologista, surgiu o diagnóstico de um nódulo na mama.
A partir daquele momento, começou uma jornada marcada por medo, enfrentamentos e descobertas, mas também pela convicção de que é possível tratar o câncer no Acre com qualidade e dignidade.
“Hoje eu tenho lugar de fala para dizer que existe uma falsa ideia de que não é possível tratar e se curar de um câncer aqui com a mesma qualidade encontrada em outros estados”, atesta.
O diagnóstico foi concluído no Centro de Controle Oncológico do Acre (Cecon), instituição pela qual faz questão de demonstrar gratidão: “O Cecon foi um ponto de apoio extraordinário. Profissionais incríveis. Foi onde fiz todo o meu diagnóstico”.
O tratamento prosseguiu na Unacon. Em razão da agressividade do tumor, a cirurgia foi realizada apenas 15 dias após a confirmação da doença. Mas a batalha não se resumia ao câncer. Durante uma consulta, Iri foi informada de que faria a cirurgia para retirada do tumor, mas sem a reconstrução mamária imediata. “Eu pensei: vou ficar mutilada? Como vou enfrentar quimioterapia, radioterapia e imunoterapia desse jeito?”, conta.
Para a paciente, a discussão nunca esteve relacionada à estética, mas a direitos humanos. Conhecedora da legislação que garante a reconstrução mamária às pacientes submetidas à mastectomia, decidiu buscar informações e reivindicar o cumprimento da lei.
A mobilização ganhou repercussão nas redes sociais e despertou uma onda de solidariedade: “Muitas mulheres me procuraram para contar histórias dolorosas. Algumas nunca conseguiram acesso à reconstrução e tiveram a vida profundamente impactada.”

Foi então que as mastologistas ligadas ao Cecon ofereceram uma alternativa para realizar a retirada do tumor acompanhada da simetrização mamária. “Ali eu vi uma luz no fim do túnel”, resume.
A cirurgia foi realizada e o tratamento prosseguiu com quimioterapia, radioterapia e imunoterapia. Com isso, vieram os efeitos colaterais e os dias de incerteza. “Eu sinto coragem e medo todos os dias da minha vida. E acho que isso é natural do ser humano”, avalia.
Passados mais de dois anos e meio desde o diagnóstico, a paciente segue em acompanhamento e celebra cada etapa vencida: “Eu escolho me animar com cada passo dado. Não foco no que falta. Foco no caminho que já foi percorrido”.
Ao relembrar a experiência, Iri destaca um aspecto que considera decisivo para sua recuperação: permanecer perto da família. “Não existe rede de apoio melhor do que a família e os amigos”, frisa.
Por isso, defende que o fortalecimento da rede oncológica no Acre seja tratado como prioridade. “Eu pude voltar para a minha casa, para a minha cama, para os meus animais. Isso fez toda a diferença para enfrentar os efeitos do tratamento”, aponta.

Embora reconheça a necessidade de avanços, especialmente na realização de exames de imagem, acredita que a estrutura existente é capaz de oferecer assistência de qualidade: “A Unacon está preparada. Precisa melhorar, como todos os serviços, mas é importante olhar para o que temos e confia”.
A principal lição que tirou da experiência envolve informação e cidadania. “A Constituição brasileira é fenomenal. Existem leis que nos protegem, mas precisamos conhecer esses direitos”, contextualiza.
Iri conta que estudou a legislação relacionada ao tratamento oncológico e passou a orientar outras mulheres. “Nem só dinheiro é poder. Conhecimento também é poder. E pode salvar vidas. Quando você chega diante de um médico com respeito, mas com conhecimento, o tratamento muda”, diz.
Com serenidade, resume sua trajetória percorrida desde o diagnóstico: “Eu sobrevivo de milagres. Mas também sobrevivo da coragem, da informação, do apoio e da decisão diária de continuar caminhando”.
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